Por Gecivaldo Santos, Luciane Paz e Raiane Azevedo
Vicky Tavares era estilista, viajou para vários países, foi a primeira empresária a trabalhar exclusivamente com couro em Brasília-DF e nas horas vagas, juntamente com suas amigas comerciantes da quadra 205 da Asa Sul onde possuia uma loja com seu nome, ajudava moradores de rua distribuindo sopão, cestas básicas e roupas. Além disso, também foi voluntária em um abrigo para mulheres vítimas da violência.

Foto: Luciane Paz
Vicky também colaborava em uma ONG para portadores do HIV, quando o presidente resolveu fechar a instituição por dificuldades finaceiras, preocupada com o futuro das crianças, a maioria orfã, a senhora de 60 anos reconheceu sua principal missão: ajudar ao próximo. No princípio o que era somente mais um voluntariado tornou-se prioridade em sua vida, e em fevereiro de 2007 fundou o Instituto Vicky Tavares – Vida Positiva, em Taguatinga Norte, e o mundo da moda se tornou hobby.
O abrigo atende 21 crianças, entre quatro e 17 anos, que vivem com HIV e convivem com a AIDS.Todas encaminhadas pela Vara de Infância e da Juventude do DF, o juiz detém a guarda provisória e as transfere, passando a tutela para presidente da ONG, além disso, há também as crianças que ficam em regime de creche, ou seja, de segunda á sexta-feira, de 8h às 18h, enquanto seus pais ou responsáveis trabalham.
Rotina da Casa
Exceto a rotina de medicamentos anti-retrovirais tomados de quatro a sete vezes ao dia, seguindo rigorosamente os horários estabelecidos pelos médicos, e os efeitos colaterais causados por eles, elas mantêm uma agenda como a de qualquer outra criança. Todas estão matriculadas e freqüentam a rede de ensino, praticam esportes, assistem TV, jogam vídeo game, vão ao cinema, teatro, escolinha de futebol, igreja e passeios semanais. além de seguir uma dieta balanceada prescrita por nutricionistas voluntários, com frutas, verduras e alimentos ricos em proteínas.
Doadores e doações
Todas as despesas das crianças, como vestuário, material escolar e atividades para o lazer são custeadas pelo Instituto, que conta com o apoio financeiro de voluntários. “Algumas crianças passam os fins de semana com os pais e para garantirmos que a dieta e os cuidados com eles permaneçam fora do abrigo, a família também recebe apoio como cestas básicas, gás e etc. Devido à dose alta dos medicamentos, algumas têm colesterol alto, diabetes. E a gente não pode descuidar, né?”, explica Dona Vicky, como é chamada pelos funcionários e visitantes.
Algumas doações são fixas como o aluguel que desde a fundação do instituto é paga pelo mesmo doador, além da padaria que fornece pão quentinho, a van que leva os menores para a escola e etc. Os doadores, em sua maioria conhecem a ONG através de notícias e amigos, fazem a visita e passam a contribuir com o que podem. “Vivemos de contar moedinhas, o que é pouco para muitos, é importante para nós”, diz a presidente da ONG.
Há também os padrinhos sociais que são voluntários freqüentes do Vida Positiva, e acabam tendo uma afinidade maior com alguma criança. Esse passa a apadrinhá-la com roupas, calçados, materiais escolares e alguns custeam até festas de aniversário e depois de um acompanhamento rigoroso, em alguns casos a criança pode passear com o padrinho.
“Me apaixonei pela Vitória* assim que a vi, nossa sintonia foi tão grande que a considero mais do que uma afilhada, tenho como filha mesmo. Aliás, ela pode não ser de sangue, mas nasceu aqui”, declara Patrícia Pimenta, cozinheira, apontando para o coração.
A relação das crianças com os familiares
“Infelizmente, a relação da maioria é distante, quase inexistente. Grande parte delas é órfã, pois os pais já faleceram em decorrência do AIDS, outros são filhos de pais moradores de rua, usuários de drogas que somem, abandonando esses meninos e meninas tão carentes”, afirma Dayse Carvalho, coordenadora da ONG desde sua fundação em 2007.
“Alguns pais não aceitam a doença e por não se cuidarem também não tem a responsabilidade de dar a medicação corretamente para os filhos, isso implica na saúde deles. Ás vezes quando voltam, estão doentes, mais magros.”, diz a coordenadora.
O caso dos órfãos ainda é mais complexo, pois além de ter que conviver com a morte dos pais, a doença e o preconceito, eles são abandonados pelas famílias que não tem informação suficiente sobre o vírus e por preconceito renegam os pequenos afirmando não ter condições financeiras para cuidar deles.
Um trabalho exercido com cuidado, amor e responsabilidade
A relação entre funcionários e crianças é de pais e filhos, o que era pra ser somente um emprego se torna algo maior, uma relação familiar onde se aprende todos os dias que cuidar e amar ao próximo são valores que precisam ser exercidos diariamente.
“Competência e aperfeiçoamento contínuo também fazem parte da cartilha dos funcionários para desempenhar suas funções impecavelmente na ONG. Qualquer erro nas dosagens ou no horário em que as medicações devem ser tomadas pode causar danos irreversíveis na saúde deles. Cuidamos para que não aconteça treinando cada funcionário de acordo com sua função.”, afirma Dayse, coordenadora e responsável pelo treinamento dos colaboradores.
A sintonia entre eles é tanta que as cuidadoras são chamadas de mãe por alguns pequenos, além da presidente chamada carinhosamente por “Vó Vicky”. Nas datas comemorativas de fim de ano, as crianças que não tem contato com a família comemoram na casa dos funcionários.
“As pessoas entram para trabalhar e se apaixonam pelos pequenos. Quando cheguei aqui não sabia que me envolveria tão profundamente com meu trabalho. Hoje em dia eu me preocupo com eles até quando estou de folga.”, comenta a motorista da casa, Juliana Feitosa.
Um olhar para o futuro

Foto: Gecivaldo Santos
Não é só abrigar crianças portadoras do HIV e que convivem com a AIDS, o objetivo do Instituto Vicky Tavares – Vida positiva. Incluí-los socialmente, esclarecer sobre o vírus e acabar com preconceito, faz parte do plano. Um exemplo de inclusão social são os cursos profissionalizantes de línguas e digitação que os mais velhos fazem e já existem projetos para cursos profissionalizantes e estágios.
“Infelizmente o preconceito ainda existe e é grande, falta maior participação do governo para esclarecer as formas de contaminação e demais informações sobre a doença. Já tivemos casos de professores que agiram de maneira preconceituosa com nossas crianças, isso mostra a falta de preparo e esclarecimento até mesmo de quem deveria ensinar a combater esse tipo de atitude. Um dos nossos maiores desafios é fazer com essas crianças sejam parte da sociedade. Lutamos para que sejam vistas como pessoas e não somente uma estatística.” finalizou.
* Nome fictício para preservar a identidade da criança.
Para doar:
Caixa Econômica
Agência: 1041
Operação: 003 |
Conta Corrente: 385-0